No Festival de Curitiba, Casagrande e jornalistas fazem sessão de terapia.
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Coletiva no Hotel Mabu em Curitiba de Casagrande com o . diretor Fernando Philbert. Imagens da coletiva. Web Leite Quentee News. |
Longe de “mentir pra caramba” e ser “errado pra cacete”, ex-jogador chega à Mostra Lucia Camargo com monólogo autobiográfico; sessões acontecem nesta sexta e sábado
Por Sandoval Matheus
Tudo o que faz na vida, Walter Casagrande Jr. encara como uma sessão de terapia. Dos textos que escreve pro UOL aos vídeos de grava pras redes sociais, passando pelas entrevistas que com frequência concede. É o jeito que encontrou para deixar de “mentir pra caramba” e ser “errado pra cacete”, nas palavras dele mesmo.
Foi no tratamento contra o vício em drogas que ele aprendeu a botar as emoções pra fora. Fez isso pela primeira vez ao vivo, numa mesa-redonda esportiva, no programa Arena SporTV. Naquela noite, depois de muitos anos, reencontrou Sócrates, o antigo parceiro com que fez uma das dobradinhas mais famosas e eficientes do futebol brasileiro, e que àquela altura já estava até com uma “cor diferente”, debilitado pelo alcoolismo. “Foi quando eu disse pra alguém ‘eu te amo’. Nunca tinha dito antes, nem pras namoradas, nem pra ex-mulher. Eu guardava tudo.”
“Esta entrevista pra mim aqui hoje também é uma sessão de terapia”, afirmou, durante coletiva na Sala de Imprensa Teuda Bara e Maurício Vogue. “Quanto mais eu conto minha história, mais eu vou esvaziando, ficando leve. Por isso minhas respostas são longas”, explicou.
Hoje, Casão, como é carinhosamente conhecido – chegou a ser chamado por um repórter de “o amigo imaginário de todos nós” –, garante que é um cara mais judicioso e menos impulsivo, do tipo que costuma pensar bastante antes de tomar uma decisão. Ele apresenta o monólogo autobiográfico “Na Marca do Pênalti” nesta sexta e sábado, 03 e 04 de abril, às 20h30, no Teatro Guaíra, dentro da programação da Mostra Lucia Camargo do Festival de Curitiba – mas nem uma estreia nacional no maior evento de artes cênicas da América Latina foi algo que ele topou assim, na hora.
“Eu tinha um convite pra ir no Monster of Rock [que acontece amanhã, no Allianz Parque, em São Paulo] e ficar no backstage com as bandas. Então quando surgiu a proposta do Festival, eu disse: não responde ainda, deixa eu pensar”, confessou o roqueiro inveterado. “É claro que daí eu decidi vir pra Curitiba. É sedutora a ideia de subir num palco, dá uma adrenalina. E eu sou viciado em adrenalina.”
Pra palestra-performance que vai apresentar no Guairão, o ex-jogador de futebol e atual comentarista não segue texto nem roteiro, e diz que fala “o que vier na cabeça”. Pode parecer demasiadamente improvisado, mas a obra tem a chancela de qualidade do diretor Fernando Philbert, indicado ao Prêmio Shell pelo seu último trabalho, a montagem de “Todas as Coisas Maravilhosas”, com Kiko Mascarenhas.
“Como dizia o Augusto Boal, todos nós somos atores quando escolhemos nossas roupas, pensamos nossas falas”, disse, ao responder a uma pergunta dos repórteres sobre a ocasional inexperiência de Casão no proscênio. “Entre direção e assistência de direção, devo ter feito já uns cinquenta espetáculos. O meu talento principal sempre foi dirigir atores, fazer com que eles fossem verdadeiros. E quanto sentei pela primeira vez pra tomar um café com o Casagrande, vi ali alguém que poderia subir em um palco. Pra mim, o que a gente está fazendo é um golaço.”
Um pouco antes, o próprio Casagrande havia colocado a bola no chão ao abrir a conversa: “Eu não sou um ator, não vou atuar. Nunca fui um personagem. A peça é espontânea, verdadeira, não omite nada. Muitas vezes, vou falar da droga com glamour, porque ela realmente foi glamourosa por um bom tempo. É só depois que a coisa vira”, afirmou. “Eu já fiz uma apresentação dessa peça no Teatro do Corinthians. Enquanto eu ia falando, olhava os olhos das pessoas, e vi neles a identificação. Todas as vidas são iguais. As dificuldades que eu tive, também são as dificuldades de vocês”.